Rose Marques
A leitura de notas policiais, presentes nos jornais diários, pode se transformar em um bom exercício de observação da tão defendida e apregoada objetividade jornalística. O assunto já foi bastante debatido e, se hoje ele é quase senso comum nas discussões acadêmicas, seja por aqueles que defendem a abordagem objetiva do fato quanto por aqueles que reconhecem a sua impossibilidade empírica, isso não torna o exercício menos interessante.
“DJ é assassinado a tiros dentro de bar em Diadema” (*)
“Um DJ foi assassinado a tiros após uma discussão em um bar no centro de Diadema, região metropolitana de São Paulo, por volta das 22 horas de domingo. Carlos Alberto Sabino, 40 anos, trabalhava no Bar Açaí, na Avenida Juarez Rios de Vasconcelos, nº 366.
Segundo testemunhas, a briga começou quando Sabino pediu para um cliente que fumava dentro da casa apagar seu cigarro. Eles teriam discutido e o cliente, armado, disparou quatro vezes contra o DJ. Sabino morreu no local e o assassino fugiu. O crime foi registrado no 1º DP de Diadema”.
(*) nota divulgada em 07/06 pela Agência Estado
Um fato - ou ocorrência policial. Seu registro em forma de notícia. Local, dia e hora. Personagens envolvidos. Testemunhas. Motivos. Após a leitura, a sensação, quase uma certeza, de que foi exatamente assim que aconteceu. A nota não deixa dúvidas. Objetividade a serviço da transparência.
“Policiais atiram em adolescente que estava com arma de brinquedo” (*)
“Um adolescente de 14 anos foi baleado na noite deste domingo, após uma abordagem policial na Vila Mirim, em Praia Grande. Antes de ser alvejado ele teria sacado uma pistola de brinquedo. Um outro suspeito chegou a disparar uma arma, mas não foi detido. Com um terceiro homem, um ajudante, foi apreendida pequena porção de maconha.Três pessoas foram vistas, por volta das 22 horas, enquanto uma equipe da Polícia Militar trabalhava pela Avenida D. Quando os policiais foram abordar uma delas, o adolescente subiu em uma bicicleta e saiu. Foram ouvidos dois disparos por um terceiro rapaz. Na sequência, o adolescente jogou a bicicleta no chão e sacou o que aparentava ser uma arma de fogo. Um dos policiais atirou e acertou o braço direito do jovem, perto do ombro. Só então foi apurado que o objeto era de brinquedo. O menor foi levado aos PSs Quietude e Central. Ele foi medicado e liberado. No bolso da bermuda do ajudante foi achada uma pequena porção de maconha. Seu caso foi enquadrado no porte de entorpecente para consumo pessoal”.
(*) reportagem de Fernando Diegues, publicada em 07/06 no jornal A Tribuna
Um fato - ou ocorrência policial - ganha complexidade. Mas o que foi exatamente que aconteceu?
Uma bela crônica escrita por José Castelo examina justamente a dificuldade em se narrar uma simples ocorrência policial, para além de qualquer manual de jornalismo.
“O repórter de três cabeças” (*)
“Tenho 20 anos e acabo de me tornar repórter policial. O chefe de redação, Sr. Azevedo, me convoca para minha primeira reportagem. Numa favela carioca, moradores ateiam fogo a um homem, acusado de matar a pauladas o filho adolescente. O assassino, com braços e tórax derretidos pelo fogo, ocupa um leito de hospital público, mas não corre risco de vida. Na favela, o coração destruído, sua mulher vela o filho morto.
Vou primeiro ao morro. É um crime pequeno, um episódio na vida de gente comum. No barraco, encontro apenas um velho fotógrafo de A Notícia que - com a frieza de um açougueiro experiente - escolhe as imagens mais repugnantes. "Meu marido é um cachorro", a mulher grita. "Um bicho!" Olho o corpo do rapaz, lustroso como um boneco de cera, a cabeça enrolada em bandagens imundas, o rosto borrado por placas roxas. "Ele matou meu filho por nada", a mulher continua. "Matou como se fosse um rato".
Encho-me de ódio. Ao chegar ao hospital para ouvir o assassino, pois as normas do jornalismo exigem sempre os dois lados das histórias, trago o espírito arreganhado. Largado em uma enfermaria obscura, o homem parece uma sombra de homem. Uma nódoa na paisagem. "Por que o Sr. fez isso?", pergunto, mal conseguindo encará-lo. O homem tem os olhos parados, como pérolas sujas esquecidas no fundo de uma gaveta, e não pára de tremer. Insisto: "Por quê?" Ele me olha e diz: "Ele me odiava porque eu sou só um lixeiro." Ergo a voz e, em tom de reprimenda, digo que isso não é motivo suficiente para matar.
O homem suspira. Depois diz: "Ele roubava meu dinheiro e, enquanto eu carregava lixo, ia para a cama com minha mulher." Julgo ouvir um ruído vago, mas tenebroso, como se o teto da enfermaria começasse a desabar sobre mim. Não consigo dizer mais nada. Saio.
Na redação, o Sr. Azevedo ordena: "Quero uma história violenta, que tenha início, meio e fim, pois precisamos de manchetes".
Sento-me para escrever. O esquema clássico do noticiário policial me pede uma narrativa reta, em que haja uma vítima, um assassino monstruoso e uma viúva infeliz. Começo a escrever, mas não posso avançar. Sinto-me tonto. Vou ao banheiro e vomito. De volta, escrevo uma primeira versão, a mais neutra que posso imaginar, em que os vários pontos de vista se entrelaçam. Ofereço-a ao Sr. Azevedo. Ele lê e diz: "O que é isso, um boletim de ocorrência? Quero uma história coerente, e não um relatório".
Volto para a máquina e escrevo, agora, três versões da reportagem. Ajo como um repórter que tivesse três cabeças. Na primeira, o homem é um cão danado que mata a pauladas um filho ingênuo e infeliz. Na segunda, é um homem fraco que enlouquece, manipulado pelo filho pervertido e pela mulher incestuosa. Tento uma terceira versão em que pai e filho são inocentes, fantoches nas mãos de uma megera.
As três narrativas não cabem em uma história só e, no entanto, seria assim, na conjunção contraditória das três, que eu estaria mais próximo da verdade. Mas, eu descubro, ela é o que menos importa a meu chefe.
O Sr. Azevedo, com o ar agastado, vem me cobrar a reportagem. "Nossa hora estourou", grita. Fecho os olhos, misturo as três páginas datilografadas, sorteio uma delas e, sem ver o resultado, entrego-a. O Sr. Azevedo lê e diz: "Agora sim, a história faz sentido."
Tomo o ônibus para casa. Levo no bolso as duas versões desprezadas. Amasso-as e jogo pela janela. Deixo que o vento do Aterro do Flamengo bata com força em meu rosto, castigando-me. Tento respirar, ainda sem sucesso, pois é como se uma rolha de decepção me trancasse o peito. Não tenho coragem de ler o jornal no dia seguinte. Até hoje não sei qual de minhas três versões foi publicada”.
(*) crônica publicada em O Estado de S. Paulo, em 5/8/97
A resposta à pergunta "o que aconteceu?", matéria-prima do jornalismo, nunca é tão simples. Ou não deveria ser.
A ideia por trás da objetividade do texto jornalístico é a garantia da verdade. Afinal, quanto mais objetivo o relato e menor a interferência de sujeitos sobre a realidade retratada, mais verdadeira é a notícia. Ou parece ser.
No entanto, a verdade do fato em si – se é que é possível apreender este fato em sua totalidade – é confundida com a veracidade do relato.
A pretensa objetividade jornalística acaba por esconder, ou antes, inibir qualquer humanidade possível, seja da história presente no fato, seja do narrador.
A impressão é de que, quanto mais objetiva a notícia, mais desumanizada ela se torna. Conflitos e contradições humanas não têm espaço no relato jornalístico pautado pelo caráter absoluta da objetividade.
A complexidade da vida, em sua realidade mais crua ou mais bela, deve caber nas seis questões fundamentais do lide. As notícias policiais são bons exemplos do manual jornalístico seguido à risca e do respeito ao princípio da objetividade. No entanto, essas notícias escondem histórias que nunca foram contadas. E que, talvez, jamais venhamos a conhecer.
Não estou lá (I'm not there, 2007), filme que mostra a vida e obra de Bob Dylan. Um homem: muitas vidas. Outro bom exercício de versões possíveis de uma verdade absoluta inalcançável.

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