Ana Cláudia Kabbach
Ganhar uma transformação radical na aparência ou continuar fazendo bico em um programa de TV? Talvez a decisão mais sensata da conhecida Paula Veludo, do Pânico na TV, da Rede TV, se transformou em um trunfo para o programa, fazendo a emissora disparar na audiência.
Assim como fez com o Zina, o Pânico explora a Paula Veludo pelo simples fato de ser uma pessoa humilde e ter o ingrediente necessário para o sucesso do programa: o fato de não ter boa parte dos dentes a transformou em chacota nacional, divertindo os telespectadores com seu sorriso desdentado, mas cheio de graça, na forma de um humor sádico. Entretanto, o Pânico está dando a Gorete a chance que ela nunca teve, como por exemplo, um tratamento dentário. E cai entre nós, que mulher não clama por um tratamento completo de beleza, ainda mais na faixa? Foi o que ela escolheu.
Gorete contou ao programa que já perdeu várias oportunidades de emprego por conta de sua aparência. Vale lembrar que problemas dentários, muitas vezes, não têm a ver com desleixo, mas falta de condições financeiras, como a de Gisele, que nunca pôde ir ao dentista. E essa, com certeza é a sua chance de ter a autoestima nas alturas e a do Pânico de deslanchar na audiência. Não é à toa que neste último domingo (16), o quadro “Gorete Quer Ser Gisele”, apresentado por Sabrina, rendeu a liderança à atração das 23h22 às 23h42, quando a Globo exibia o “SOS Emergência”. Com média de 12 pontos, o “Pânico” bateu seu recorde em 2010 e ficou em segundo lugar durante toda a exibição.
Apesar de ainda não achar ético explorar a imagem de uma pessoa indevidamente julgada pela sociedade por conta de sua aparência, o fato da mesma se deixar julgar e se submeter a esse tipo de “emprego” me faz calar. Passo, assim, a admirar a coragem de Gorete a se deixar humilhar por alguns trocados.
Espero, sinceramente, que Gisele agarre essa oportunidade ímpar em sua vida e aproveite o que o Pânico na TV lhe deu para conseguir se aceitar como mulher e com chances iguais de disputar qualquer vaga de emprego - uma vez que a Paula Veludo já era com a transformação.
1 comentários:
Situações como esta, de exploração das debilidades e fragilidades humanas em troca de cifras, não é exclusividade de programas como o Pânico. Algumas igrejas, por exemplo, fazem isso há tempos e com muito mais profissionalismo. E penso que o fato destas pessoas valorizarem alguma vantagem que possam extrair ao se submeterem a situações humilhantes e vexatórias apenas escancaram ainda mais tanto sua vulnerabilidade quanto a incompetência e o descaso de quem, de fato, deveria assistí-las.
Minha crítica não se direciona à moça em questão, que, infelizmente, acaba abraçando a oportunidade, por ser, talvez, única em sua existência, mas a quem não tem o mínimo de caráter em apenas ajudar sem querer nada em troca.
E o lamento fica por conta da inversão da valoração, onde a recauchutagem da boca vale mais que a própria dignidade.
Parabéns pelo texto!
Cristiano Liveraro
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